OSINT como disciplina jurídica
Inteligência de fontes abertas aplicada ao Direito, à investigação defensiva e à produção de provas. Do conceito à cadeia de custódia, das disciplinas de inteligência ao catálogo de ferramentas, um centro de referência lastreado na obra de Gabriel Bulhões e no rigor técnico do OSINT.
O que é OSINT, e por que virou disciplina jurídica
OSINT, do inglês open source intelligence, é a inteligência de fontes abertas: a coleta, o processamento e a análise metódica de informação publicamente acessível para responder a uma pergunta de investigação. O ponto de partida é o fenômeno do Big Data e a virtualização da vida, em que cada sujeito digitalmente incluído é uma fonte contínua de dados. Como sintetiza a obra de Gabriel Bulhões, o dado passou a ser o novo petróleo.
O que separa o OSINT de uma busca qualquer na internet é o método e, sobretudo, a fronteira da licitude: só se trabalha com fontes abertas, de livre acesso, sem afastamento judicial de direito fundamental. É essa disciplina, aplicada ao Direito, que este centro organiza.
Negar a possibilidade do uso da OSINT ao particular é algo impensável.
Fonte aberta e fonte fechada
A distinção é o coração de tudo. É ela que define, antes de qualquer ferramenta, o que a defesa pode e o que não pode fazer.
Pode, sem ordem judicial
Fonte aberta
- De livre acesso a qualquer pessoa: registros públicos, diários oficiais, tribunais, imprensa, redes sociais públicas.
- Não exige afastamento judicial de direito fundamental.
- É o recorte exclusivo em que o OSINT opera.
Exige ordem judicial
Fonte fechada
- De acesso restrito: dado protegido (exige credenciamento) ou negado (exige busca e apreensão).
- Acessar sem autorização contamina a prova e é ilícito.
- Fora do escopo do OSINT.
Entre o dado bruto e a decisão do caso há uma escada de sofisticação que a obra incorpora das normas de inteligência: o dado é a representação bruta; a informação é o conjunto de dados com relevância e aplicação útil; o conhecimento é o dado processado e aplicado a uma situação-problema. OSINT é o conjunto de técnicas que percorre essa escada a partir de fontes abertas.
As disciplinas de inteligência
A inteligência recebe o nome da fonte de onde nasce. OSINT é uma entre várias disciplinas; conhecê-las situa o que é lícito e aplicável na investigação jurídica, sempre sobre o que é público.
Disciplina que coleta, processa e analisa informações disponíveis publicamente para produzir conhecimento acionável. Abrange sites, registros públicos, mídias sociais, imagens de satélite, publicações oficiais e bancos de dados de acesso livre. O que a define não é a natureza do dado, mas a forma lícita de obtenção, sem invasão de sistemas nem quebra de sigilo.
Na prática: Na defesa, mapear a presença digital pública de uma testemunha de acusação para identificar contradições entre o depoimento e publicações abertas anteriores, subsidiando a estratégia de contradita.
Disciplina que obtém informações a partir do contato direto com pessoas, por meio de entrevistas, conversas e depoimentos voluntários. Depende da relação interpessoal e da capacidade de avaliar credibilidade e coerência dos relatos. No exercício da advocacia, materializa-se em entrevistas defensivas conduzidas com consentimento e registro adequado.
Na prática: Entrevistar de forma voluntária um funcionário que presenciou os fatos, colhendo termo de comparecimento, para reconstruir a cronologia dos acontecimentos no âmbito de investigação defensiva.
Disciplina voltada à interceptação e análise de sinais eletromagnéticos, como comunicações e emissões de radar. É atividade sujeita a estrito controle legal e reserva de jurisdição no Brasil. Para a defesa, o relevante é compreender a metodologia estatal a fim de questionar a licitude e a cadeia de custódia da prova produzida.
Na prática: Analisar tecnicamente um laudo de interceptação telefônica juntado pela acusação para verificar autorização judicial, período abrangido e integridade dos áudios, apontando eventuais nulidades.
Disciplina que integra imagens, mapas e dados de posição para descrever e avaliar fenômenos referenciados no espaço geográfico. Combina sensoriamento remoto, cartografia e análise de terreno. Em fontes abertas, apoia-se em imagens de satélite públicas, Street View e bases geográficas colaborativas.
Na prática: Verificar se um local descrito na denúncia é fisicamente compatível com a dinâmica narrada, medindo distâncias e linhas de visada em imagens públicas para testar a plausibilidade da versão acusatória.
Subdisciplina geoespacial dedicada à exploração analítica de imagens, sejam fotografias, vídeos ou capturas por satélite e drone. Concentra-se na leitura de elementos visuais, escala, sombras e feições para extrair conhecimento. Distingue-se da GEOINT por focar no conteúdo da imagem em si, mais que na referência espacial.
Na prática: Examinar um vídeo divulgado publicamente para estimar horário pela posição de sombras e confrontar com o horário atribuído ao fato na peça acusatória.
Disciplina que analisa conteúdo público de plataformas de mídia social para compreender vínculos, comportamentos e cronologias. Trabalha com publicações, conexões, interações e metadados abertos. Restringe-se ao que está publicamente acessível, sem uso de perfis falsos nem engenharia social.
Na prática: Construir a linha do tempo pública de publicações de um envolvido para demonstrar que ele se encontrava em outra cidade na data dos fatos, corroborando a tese de álibi.
Disciplina voltada à análise de fluxos financeiros, movimentações e relações patrimoniais para identificar padrões e origens de recursos. Em ambiente estatal, apoia-se em comunicações de operações e dados sigilosos. Em fontes abertas, limita-se a registros públicos, societários e dados divulgados sem quebra de sigilo bancário.
Na prática: Cruzar registros societários públicos e publicações oficiais para evidenciar a inexistência de vínculo econômico entre o cliente e a pessoa jurídica apontada como instrumento do crime.
Disciplina que investiga o ambiente digital, incluindo infraestrutura de rede, domínios, certificados, vazamentos e superfície de exposição. Foca em compreender ativos, ameaças e rastros digitais. Mantém-se em fontes abertas quando consulta bases públicas e serviços de reputação, sem acesso não autorizado a sistemas.
Na prática: Verificar em bases públicas de vazamentos se um endereço de e-mail atribuído ao cliente circula em bancos comprometidos, contextualizando alegações de uso indevido de identidade digital.
Disciplina que deriva conhecimento de características físicas e assinaturas técnicas detectadas por sensores, como emissões térmicas, acústicas, químicas ou radiológicas. É altamente especializada e tipicamente estatal ou pericial. Para a defesa, importa como referência para escrutinar a metodologia de laudos técnicos.
Na prática: Compreender os fundamentos de uma assinatura técnica para questionar, com apoio de assistente técnico, a confiabilidade de um laudo pericial apresentado pela acusação.
Disciplina que analisa características técnicas de equipamentos, materiais e tecnologias para entender capacidades e funcionamento. Examina o objeto em si, sua especificação e sua operação. Aplica-se ao estudo de dispositivos, aplicativos e artefatos relevantes a um caso concreto.
Na prática: Estudar o funcionamento técnico de um aplicativo de mensagens para demonstrar que determinado registro apresentado como prova não poderia ter sido gerado da forma alegada.
O ciclo de inteligência
Planejamento e direção
Define-se o objetivo da investigação, as perguntas a responder e os requisitos de informação. Nesta fase delimitam-se o escopo, os limites de licitude e os recursos, orientando toda a coleta subsequente.
Coleta
Reúnem-se dados a partir das fontes abertas selecionadas, com registro de origem, data e método. A disciplina de preservação garante que cada elemento coletado mantenha integridade e rastreabilidade.
Processamento
Os dados brutos são organizados, traduzidos, extraídos e estruturados em formato utilizável. Metadados, imagens e textos são normalizados para permitir análise consistente.
Análise e produção
As informações processadas são avaliadas, cruzadas e interpretadas para gerar conclusões fundamentadas. Constrói-se o conhecimento com indicação de fontes, grau de confiança e hipóteses alternativas.
Disseminação
O conhecimento produzido é entregue a quem dele necessita, em formato adequado ao uso, como um relatório de investigação defensiva. A entrega respeita sigilo, finalidade e a cadeia de custódia.
Paridade de armas: o fundamento jurídico
A inteligência de fontes abertas nasceu no uso militar, o marco costuma ser situado em 1939, quando o governo britânico incumbiu a BBC de monitorar a imprensa e o rádio, e se intensificou na Guerra Fria e no pós-11 de setembro. Depois foi apropriada pela inteligência de Estado e pelas forças de segurança pública. Com as novas tecnologias, ela se descentralizou e chegou às empresas, aos investigadores e à advocacia.
É daí que Gabriel Bulhões extrai a tese central: o Estado já usa OSINT massivamente, inclusive com contratações vultosas e convênios com grandes plataformas. Negar esse instrumento legítimo ao cidadão, às empresas e à defesa fere a paridade de armas. Não se trata de recusar a tecnologia, e sim de disputar o seu uso e a sua regulação, com boas práticas e limites claros.
Temos aqui o reforço do princípio geral da paridade de armas no processo penal.
O mapa das fontes abertas
As opções de coleta em fontes abertas são inúmeras e crescem a cada dia. Abaixo, as grandes categorias, o que cada uma entrega e o limite jurídico que a acompanha.
Registros públicos e juntas comerciais
As juntas comerciais estaduais e o cadastro nacional consolidado registram atos constitutivos, alterações contratuais e situação de empresas e empresários. Permitem reconstruir a linha do tempo societária de uma pessoa jurídica e identificar administradores e sócios ao longo do tempo. O acesso é feito por certidões e portais oficiais, muitas vezes mediante pagamento de taxa.
Diários oficiais
Diários oficiais da União, dos estados e dos municípios publicam atos administrativos, nomeações, licitações, editais, intimações e decisões com efeito de publicidade oficial. São fonte primária datada e presumidamente autêntica, úteis para comprovar publicidade de um ato e sua data. Existem agregadores que indexam múltiplos diários e facilitam a busca por nome.
Processos judiciais e tribunais
Os portais dos tribunais e os sistemas de consulta processual permitem localizar processos por nome de parte, número CNJ ou advogado, respeitando o regime de publicidade. Servem para mapear litígios, antecedentes cíveis e criminais públicos e a fase de andamento. Parte relevante do acervo está sob segredo de justiça e não é acessível a terceiros.
Portais da transparência
Os portais da transparência da União, estados e municípios divulgam despesas públicas, remunerações de servidores, contratos, convênios e beneficiários de programas sociais. Alimentados pela Lei de Acesso à Informação, permitem cruzar vínculos entre agentes públicos, fornecedores e valores. A granularidade varia conforme o ente federativo.
Dados empresariais, societários e beneficiário final
Bases da Receita Federal (CNPJ), plataformas de inteligência empresarial e o cadastro de beneficiário final permitem mapear a estrutura de controle de grupos econômicos. Ajudam a identificar quem efetivamente controla uma cadeia societária, inclusive por meio de holdings e participações cruzadas. A base pública do CNPJ é disponibilizada em lotes abertos pela Receita.
Redes sociais (SOCMINT)
Perfis públicos em redes sociais fornecem manifestações, relações, localizações e cronologia de eventos declarados pelo próprio titular. A análise de fontes sociais (SOCMINT) reconstrói vínculos, rotina e presença em locais a partir de conteúdo voluntariamente publicado. É uma das fontes mais ricas e ao mesmo tempo mais sensíveis do ponto de vista jurídico.
Marketplaces e classificados
Plataformas de comércio e classificados expõem anúncios, histórico de vendedor, avaliações e itens ofertados, úteis para vincular pessoas a bens, atividade econômica e padrão de vida. Permitem localizar bens anunciados e caracterizar atuação comercial informal. O rastreamento depende de identificadores públicos do anúncio ou do vendedor.
Domínios, DNS e WHOIS
Registros de domínios (registro.br para .br e WHOIS internacional), dados de DNS e certificados digitais revelam a infraestrutura por trás de um site. Permitem associar domínios a um mesmo responsável, identificar servidores e datas de registro. Após regras de privacidade, parte dos dados de titular passou a ser mascarada.
Wayback Machine e arquivos da web
Serviços de arquivamento da web preservam versões passadas de páginas, permitindo recuperar conteúdo removido ou alterado e provar o estado de um site em determinada data. São essenciais para demonstrar publicações anteriores, edições e retiradas de conteúdo. A cobertura é irregular e depende de o crawler ter capturado a página.
GitHub e repositórios de código
Plataformas de repositório expõem código, históricos de commit, autores, e-mails de commit e, por vezes, credenciais e segredos publicados por engano. Permitem atribuir autoria de código, mapear colaboradores e identificar vazamentos técnicos. O histórico versionado registra data e autoria de cada alteração.
Pastebin e bases de vazamento
Sites de colagem de texto e compilações de vazamentos podem conter credenciais, bancos de dados expostos e material sensível. Serviços legítimos permitem apenas verificar se um e-mail consta em vazamentos, sem entregar a senha. Aqui a ressalva de licitude é máxima, pois manusear bancos de dados vazados envolve dados obtidos por crime.
Bases acadêmicas e científicas
Repositórios de teses, currículos acadêmicos (como plataformas de currículo científico), bases de artigos e bibliotecas digitais permitem confirmar formação, produção e vínculos institucionais de uma pessoa. Servem para verificar credenciais e detectar inconsistências curriculares. Grande parte é aberta e indexável.
Dados governamentais abertos
Portais de dados abertos disponibilizam conjuntos estruturados de licitações, sanções, cadastros de inidôneos, frotas, estabelecimentos e indicadores. Permitem análise em escala e cruzamento de bases para detectar padrões e vínculos. A qualidade e atualização variam por conjunto.
Imagens de satélite e dados geoespaciais (GEOINT)
Imagens de satélite, ortofotos, mapas colaborativos e serviços de vista de rua permitem caracterizar um local, medir distâncias, datar mudanças no terreno e apoiar geolocalização de fotos. A inteligência geoespacial (GEOINT) confirma ou refuta versões sobre presença em um local e cronologia de obras ou eventos. A resolução e a data das imagens variam por região.
No seu caso, cruzar essas fontes à mão consome tempo. O Scanner OSINT do escritório consulta dezenas dessas bases de uma vez e entrega os achados em um dossiê sob custódia.
Geolocalização, redes sociais, blockchain e ciber
GEOINT
GEOINT e Geolocalização: verificação de locais, trajetos e horários
A inteligência geoespacial aplicada à defesa criminal parte de uma pergunta simples e verificável: o que a acusação afirma sobre lugar, distância e tempo se sustenta diante da realidade geográfica? A geolocalização em fontes abertas permite reconstruir cenários, confirmar ou afastar a presença de pessoas em determinado ponto e medir a viabilidade física de deslocamentos, sempre a partir de material publicamente disponível.
O trabalho começa pela verificação do local. Imagens de satélite públicas, o Street View e bases geográficas colaborativas como o OpenStreetMap permitem confirmar a existência de referências citadas nos autos, como estabelecimentos, esquinas, acessos e obstáculos. A comparação entre uma fotografia divulgada e o ambiente real ao redor, técnica de chroma-referência visual, ancora a imagem em coordenadas verificáveis e testa se a cena poderia ter ocorrido onde se alega.
A dimensão temporal é decisiva. A posição de sombras em fotos e vídeos, combinada com dados de efemérides do Sol, ajuda a estimar faixa de horário e a confrontá-la com a cronologia da denúncia. O cruzamento com registros públicos de clima e de nascer e pôr do sol reforça ou enfraquece a narrativa, ao verificar, por exemplo, se havia luz natural, chuva ou condições compatíveis com o relato apresentado.
Metadados também importam. Quando presentes e preservados, os dados EXIF de uma imagem, incluindo geotag e carimbo de data e hora, podem indicar onde e quando o arquivo foi gerado. Esse indício precisa ser tratado com cautela, pois metadados podem ser removidos, alterados ou ausentes, exigindo corroboração por outras fontes antes de qualquer conclusão.
Na estratégia defensiva, a GEOINT presta-se sobretudo a testar álibis e a avaliar a plausibilidade de versões. Demonstrar que a distância entre dois pontos é incompatível com o tempo alegado, ou que a geografia do local não comporta a dinâmica descrita, é contribuição técnica robusta. Todo o material é obtido de fontes abertas, sem qualquer forma de invasão, rastreamento clandestino ou acesso não autorizado a dispositivos.
- Verificação de local por imagens de satélite públicas e comparação de feições no terreno
- Uso de Street View para confirmar referências, acessos, linhas de visada e obstáculos
- Reconstrução de trajetos e medição de distâncias e tempos com OpenStreetMap
- Análise de sombras com efemérides solares para estimar faixa de horário
- Cruzamento com registros públicos de clima, nascer e pôr do sol
- Leitura de metadados EXIF e geotag, com corroboração independente
- Chroma-referência visual entre fotografias e o ambiente geográfico real
SOCMINT
SOCMINT e Mídias Sociais: coleta pública, vínculos e preservação
A inteligência de mídias sociais examina o que pessoas e organizações tornam publicamente disponível em plataformas como Instagram, Facebook, LinkedIn, X, TikTok e Telegram. Para a defesa criminal, esse universo oferece cronologias, relações e declarações que podem confirmar teses, revelar contradições em depoimentos ou contextualizar a conduta imputada ao cliente, sempre a partir de conteúdo aberto.
A coleta concentra-se em publicações, comentários, conexões e interações acessíveis sem autenticação privilegiada nem burla de restrições. A partir desse material, a análise de rede e de vínculos mapeia como os envolvidos se relacionam, identificando proximidade, contatos recorrentes e comunidades. A montagem de uma timeline de publicações permite situar pessoas no tempo e no espaço, elemento valioso para corroborar um álibi ou questionar a versão acusatória.
A preservação é etapa central e não acessória. Capturas com data e hora, registro da URL de origem e, quando cabível, ata notarial conferem valor probatório ao material e resguardam a cadeia de custódia. Conteúdo em mídias sociais é volátil e pode ser editado ou removido, de modo que a documentação tempestiva protege a prova contra alegações de manipulação.
Os limites são rígidos e definem a legitimidade do trabalho. A coleta restringe-se ao que é efetivamente público, sem criação de perfis falsos, sem solicitações de amizade para acessar conteúdo restrito e sem qualquer forma de engenharia social. A Lei Geral de Proteção de Dados serve como enquadramento legal geral para o tratamento de dados pessoais, exigindo finalidade legítima, necessidade e proporcionalidade no manejo das informações coletadas.
Bem conduzida, a SOCMINT produz subsídio técnico defensável em juízo, com origem transparente e metodologia auditável. O objetivo não é devassar a intimidade de terceiros, mas extrair de forma lícita elementos públicos relevantes ao esclarecimento dos fatos, preservando a proporcionalidade e o respeito aos direitos fundamentais.
- Coleta de conteúdo público em Instagram, Facebook, LinkedIn, X, TikTok e Telegram
- Análise de rede e de vínculos entre perfis, contatos e comunidades
- Montagem de timeline de publicações para situar pessoas no tempo e no espaço
- Preservação com captura datada, registro de URL e ata notarial quando cabível
- Documentação da cadeia de custódia contra alegações de manipulação
- Enquadramento pela LGPD, com finalidade legítima e proporcionalidade
- Restrição ao conteúdo público, sem perfil falso nem engenharia social
Blockchain OSINT
OSINT de Blockchain e Criptoativos: exploradores, rastreamento e limites
As redes de criptoativos registram transações em livros públicos e imutáveis, o que torna a blockchain um terreno naturalmente aberto à análise. Cada transferência fica gravada com endereço de origem, endereço de destino, valor e horário, permitindo reconstruir fluxos sem qualquer acesso privilegiado. Para a defesa, essa transparência possibilita verificar afirmações periciais e contextualizar movimentações atribuídas ao cliente.
A ferramenta básica é o explorador de blocos, como o Etherscan para a rede Ethereum e serviços equivalentes para outras redes. Por meio dele consultam-se saldos, histórico de transações, contratos e tokens associados a um endereço. A chamada wallet intelligence agrupa endereços prováveis de um mesmo titular por heurísticas de uso comum, permitindo estimar padrões de comportamento sem, contudo, revelar identidade real por si só.
O rastreamento de fluxos segue o caminho dos valores de endereço a endereço, identificando concentrações, dispersões e passagens por serviços conhecidos. Esse mapeamento pode indicar para onde recursos se moveram e apontar pontos de contato com o sistema financeiro tradicional, que constituem os elos mais sensíveis para eventual identificação.
O limite técnico fundamental é a pseudonímia. A blockchain expõe endereços, não nomes. A vinculação de um endereço a uma pessoa depende, em regra, da ponte com uma exchange sujeita a procedimentos de conhecimento do cliente, o chamado KYC, cujos dados cadastrais são sigilosos e só se obtêm por via legal adequada. Em fontes abertas, o analista descreve fluxos e hipóteses, sem afirmar identidades que exijam quebra de sigilo.
Este tema conecta-se ao hub de criptoeconomia do Centro, em /criptoeconomia/, e ao artigo sobre o ECBS, que aprofunda o enquadramento e a metodologia de rastreamento de ativos digitais. A abordagem defensiva usa a transparência da rede a favor do contraditório, distinguindo com rigor o que a blockchain efetivamente prova do que apenas sugere.
- Consulta a exploradores de blocos como Etherscan e equivalentes de outras redes
- Wallet intelligence: agrupamento de endereços por heurísticas de uso comum
- Rastreamento de fluxos de valores entre endereços e serviços
- Identificação de pontos de contato com exchanges e o sistema financeiro
- Distinção entre o que a rede prova e o que apenas sugere
- Reconhecimento da pseudonímia como limite à atribuição de identidade
- Ponte com dados de KYC apenas por via legal adequada, sem quebra de sigilo
CYBINT
CYBINT e Superfície de Ataque: domínios, DNS, certificados e vazamentos
A inteligência cibernética em fontes abertas mapeia a exposição digital de pessoas e organizações a partir de bases públicas e serviços de consulta. O objetivo é compreender ativos, rastros e vulnerabilidades sem qualquer acesso não autorizado a sistemas. Para a defesa criminal, esse conhecimento contextualiza alegações sobre uso indevido de identidade, comprometimento de contas e origem de comunicações digitais.
O mapeamento de domínios e subdomínios revela a infraestrutura associada a um alvo, incluindo serviços expostos e páginas relacionadas. Consultas de DNS descrevem como nomes se resolvem em endereços e quais registros estão configurados, enquanto a análise de certificados digitais, por meio de logs públicos de transparência, permite descobrir domínios e serviços vinculados a uma mesma organização.
A verificação de vazamentos é recurso relevante. Serviços como o Have I Been Pwned informam se um endereço de e-mail figura em bases de dados comprometidas divulgadas publicamente. Esse indício ajuda a avaliar a plausibilidade de teses de invasão de conta ou de uso indevido de credenciais, sempre como ponto de partida a ser corroborado, não como prova conclusiva isolada.
Metadados de documentos e imagens completam o quadro. Informações técnicas embutidas em arquivos, quando preservadas, podem indicar autoria de software, datas e dispositivos, subsidiando questionamentos sobre a origem de um material apresentado nos autos. Como em toda evidência técnica, esses dados exigem cautela por serem passíveis de alteração.
Os limites são inegociáveis. A CYBINT em fontes abertas consulta bases públicas e serviços de reputação, sem tentativa de acesso, sem exploração de falhas e sem interceptação. A atividade descreve a superfície de exposição já disponível, respeitando a legalidade e mantendo a distinção clara entre observar o que é público e intrometer-se no que é protegido.
- Mapeamento de domínios e subdomínios e serviços associados
- Consultas de DNS para descrever resolução de nomes e registros configurados
- Análise de certificados digitais por logs públicos de transparência
- Verificação de e-mails em bases de vazamento como Have I Been Pwned
- Leitura de metadados de documentos e imagens, com cautela quanto à adulteração
- Avaliação da superfície de exposição sem acesso, exploração de falhas ou interceptação
- Corroboração de indícios por múltiplas fontes antes de conclusão
Catálogo de ferramentas, por finalidade e risco
Um catálogo comentado, classificado por finalidade e por risco jurídico para o uso pela advocacia. A régua é sempre a mesma: só fonte aberta, sem invasão, sem engenharia social. Filtre por categoria.
Refina buscas em mecanismos de pesquisa com operadores para localizar arquivos, subdomínios e conteúdo indexado específico.
Correlaciona entidades (pessoas, domínios, e-mails, empresas) em grafos visuais a partir de transformações de várias fontes.
Automatiza a coleta OSINT sobre um alvo (domínio, IP, e-mail, nome) integrando dezenas de módulos de reconhecimento.
Indexa dispositivos e serviços expostos na internet, mostrando portas, banners e tecnologias de um host.
Mapeia hosts, certificados e serviços expostos na internet para análise de superfície de ataque e infraestrutura.
Coleta e-mails, subdomínios e nomes associados a um domínio a partir de fontes públicas e buscadores.
Procura um mesmo nome de usuário em centenas de plataformas para mapear a presença online de um apelido.
Enumera perfis por nome de usuário em muitos sites e extrai metadados públicos de cada perfil encontrado.
Recupera versões arquivadas e datadas de páginas da web para comprovar conteúdo passado ou removido.
Lê e edita metadados de arquivos de imagem e documento, incluindo data, dispositivo e coordenadas geográficas.
Fornece imagens de satélite, histórico temporal e vistas de rua para caracterizar e datar locais.
Mapa colaborativo aberto que permite consultar detalhes de vias, edificações e pontos de interesse com dados exportáveis.
Acompanha voos em tempo real e histórico de rotas a partir de dados de rastreamento de aeronaves.
Rastreia embarcações e histórico de navegação por sinais AIS, com dados de porto e trajeto.
Explora transações, saldos e contratos na rede Ethereum a partir de endereços e hashes públicos.
Consulta transações e endereços da rede Bitcoin, permitindo rastrear fluxos entre carteiras públicas.
Consulta a titularidade e os dados técnicos de domínios sob o .br, com datas e contatos quando públicos.
Recupera registro de domínios genéricos e faixas de IP, com responsável, datas e servidores.
Verifica se um e-mail ou telefone consta em vazamentos de dados conhecidos, sem revelar senhas.
Descobre e valida padrões de e-mail corporativo associados a um domínio a partir de fontes públicas.
Busca reversa de imagens para localizar onde uma foto aparece na web e identificar a fonte original.
Busca reversa de imagens com desempenho notável em reconhecimento facial e cenas, útil em geolocalização visual.
Apoia a datação e localização de fotos por sombras, sol e pistas visuais combinadas com mapas.
Mapeia portas e serviços de hosts em rede para reconhecimento de infraestrutura.
Framework modular de reconhecimento web que organiza a coleta OSINT sobre domínios e pessoas.
Facilita a leitura e preservação de conteúdo público de redes sociais sem necessidade de login.
Cataloga e organiza centenas de fontes e ferramentas OSINT por categoria para orientar a pesquisa.
Fornece endereços, pontos de interesse, avaliações e fotos de local para caracterização de endereços.
Recupera situação cadastral, quadro societário e CNAE de empresas a partir de bases abertas de CNPJ.
Compila metodologias e ferramentas de verificação, geolocalização e análise de mídia para investigação aberta.
Levanta informações públicas associadas a um número de telefone, como operadora, país e presença online.
Extrai metadados de documentos públicos de um domínio para revelar autores, softwares e caminhos internos.
Reúne informação pública ligada a uma conta Google a partir de um e-mail ou identificador.
Ferramenta do escritório · Ethos Brasil
Scanner OSINT: da ferramenta ao dossiê
Ferramenta isolada não vira prova. O Scanner OSINT cruza dezenas de bases públicas e privadas e consolida o resultado em um dossiê estruturado, com mapa de relações e matriz de risco, documentado sob cadeia de custódia. É o motor de busca investigativa que o escritório usa para transformar fontes abertas em elementos aproveitáveis na defesa.
Investigação conduzida com licitude, sobre fontes abertas, e sob sigilo profissional.
Matriz de legalidade e matriz de risco
A legalidade de cada técnica e o risco jurídico de cada categoria de fonte, lado a lado.
| Técnica investigativa | Veredito | Por quê |
|---|---|---|
| Consulta e coleta de conteúdo efetivamente público (perfis abertos, registros, diários) | Lícito | Acesso a fonte aberta no exercício regular de direito e da defesa, desde que preservada a finalidade e a cadeia de custódia da captura. |
| Busca reversa de imagem e geolocalização de fotos publicadas pelo próprio titular | Lícito | Trabalha sobre material tornado público; cuidado apenas para não expor terceiros identificáveis sem necessidade. |
| Cruzamento e formação de perfil (profiling) a partir de várias fontes abertas | Lícito com cautela | Exige base legal e finalidade legítima sob a LGPD; deve ser proporcional ao objeto da defesa e não pode servir a exposição difamatória. |
| Verificar exposição de e-mail em vazamentos por serviço legítimo (sem acessar o dump) | Lícito com cautela | Verificação de exposição é aceitável; manusear, baixar ou usar o conteúdo vazado é que se torna ilícito. |
| Criar perfil falso, adicionar o alvo ou usar engenharia social para acessar conteúdo restrito | Ilícito | Configura obtenção enganosa de dados e pode caracterizar acesso não autorizado; prova assim obtida é ilícita. |
| Acessar conteúdo sob senha, burlar bloqueio, invadir dispositivo ou explorar falha (hacking) | Ilícito | Crime de invasão de dispositivo informático e violação de sigilo; contamina a prova e expõe o advogado a responsabilidade penal. |
| Baixar e utilizar bancos de dados vazados obtidos por crime | Ilícito | Pode configurar receptação de dados, violação da LGPD e de sigilo; incompatível com a atuação da advocacia. Como regra, é prova ilícita; o uso defensivo é admitido apenas em caráter excepcional e pro reo, sob os quatro requisitos do dilema (não participação, autenticidade, relevância e cadeia de custódia). |
| Categoria de fonte | Risco | Justificativa |
|---|---|---|
| Registros públicos e juntas comerciais | baixo | Publicidade legal consolidada; risco limitado ao reuso de dados pessoais fora da finalidade. |
| Diários oficiais | baixo | Atos com publicidade oficial e data certa; atenção apenas à republicação em massa de dados pessoais. |
| Processos judiciais e tribunais | medio | Coexistem autos públicos e sob segredo de justiça; risco de acessar ou divulgar dado protegido e de profiling difamatório. |
| Portais da transparência | baixo | Voltados ao controle social, mas cruzamentos podem revelar dado sensível de servidores e beneficiários. |
| Dados empresariais e beneficiário final | medio | Parte é aberta e parte é sigilosa; agregadores comerciais podem inferir dado não confirmado. |
| Redes sociais (SOCMINT) | medio | Rico em dados pessoais e sensíveis; a fronteira entre público e engenharia social é tênue e determina a licitude. |
| Marketplaces e classificados | medio | Vínculo entre apelido e pessoa é incerto e contato dissimulado para extrair dado é vedado. |
| Domínios, DNS e WHOIS | baixo | Majoritariamente técnica; cuidado com reidentificação abusiva de titular pessoa física. |
| Wayback Machine e arquivos da web | baixo | Preservação de conteúdo já público; para prova exige corroboração da fonte original. |
| GitHub e repositórios | medio | Conteúdo público, porém uso de segredos expostos para acessar sistemas é ilícito. |
| Pastebin e bases de vazamento | alto | Manusear dados obtidos por crime pode configurar receptação de dados, violação da LGPD e crime informático. |
| Bases acadêmicas e científicas | baixo | Fonte aberta de verificação de credencial; risco residual de dado autodeclarado não verificado. |
| Dados governamentais abertos | baixo | Estruturados e abertos; atenção ao reuso de dado pessoal e à defasagem dos conjuntos. |
| Imagens de satélite e dados geoespaciais (GEOINT) | baixo | Amplamente lícita; cuidado com exposição de pessoas e propriedades e com a data das imagens. |
O dilema dos dados vazados e da dark web
Nem todo dado disponível é fonte aberta. Um vazamento ou um conteúdo obtido na dark web pode socorrer a tese defensiva, mas sua origem é potencialmente ilícita, o que desloca a análise para o regime da prova ilícita. É o dilema que Gabriel Bulhões e Alexandre Morais da Rosa enfrentam em O dilema defensivo de usar ou não dados vazados e/ou da dark web no processo penal (ConJur, 2025): o defensor não pode fomentar nem participar da obtenção ilícita, mas também não pode simplesmente ignorar um dado que inocenta.
A resposta não é binária. A admissibilidade desse material pela defesa é excepcional e orientada ao favor do réu (pro reo), não é regra e não se estende à acusação. A decisão é caso a caso, medindo a justificativa e a finalidade do uso, sempre com ausência de participação na obtenção e observância da cadeia de custódia. É a fronteira entre o OSINT lícito, que trabalha só com fontes abertas, e o que já nasce contaminado.
A regra e a exceção
Como regra, o material de origem ilícita é prova ilícita e inadmissível. A exceção, pro reo, só se abre quando os quatro requisitos estão reunidos. Teste ao lado.
Marque os requisitos presentes no seu caso e veja o veredito mudar ao vivo.
0 de 4 requisitos reunidos
Sem os quatro requisitos, o material é, como regra, prova ilícita e inadmissível.
Aprofundamento: Gabriel Bulhões e Alexandre Morais da Rosa, O dilema defensivo de usar ou não dados vazados e/ou da dark web no processo penal (ConJur, 11 de abril de 2025).
Inteligência empresarial e due diligence
A inteligência empresarial de fontes abertas organiza, de forma metodológica e documentada, dados publicamente disponíveis para reduzir a assimetria de informação em decisões corporativas de risco. Diferente da coleta dispersa, a due diligence investigativa parte de uma pergunta de negócio (comprar, contratar, financiar, litigar) e converte registros públicos, bases oficiais e pegadas digitais em um juízo fundamentado sobre a idoneidade e a solidez de uma contraparte. O trabalho tem valor probatório e reputacional apenas quando cada achado é rastreável até a sua fonte, com data de acesso e forma de obtenção registradas, dentro dos limites de licitude.
O background check de pessoas e empresas cruza dados cadastrais, quadros societários, processos judiciais e administrativos públicos, sanções, protestos e presença digital para compor um perfil de integridade. Já a verificação de beneficiário final (UBO) busca identificar a pessoa natural que efetivamente controla ou se beneficia de uma estrutura societária, atravessando camadas de holdings, participações cruzadas e mandatos. Estruturas offshore e cadeias societárias em múltiplas jurisdições não são ilícitas por si, mas exigem leitura cuidadosa: o objetivo da investigação é mapear a titularidade real e sinais de opacidade artificial, não presumir fraude a partir da complexidade.
O forensic accounting, em noção geral, aplica técnicas contábeis e analíticas à detecção de irregularidades financeiras: reconstrução de fluxos, identificação de transações incompatíveis com o perfil declarado, superfaturamento, empresas de fachada e desvios. No plano corporativo, conecta-se ao compliance investigativo e de integridade, que apura denúncias internas, testa a efetividade de controles e sustenta decisões de remediação. A investigação de fontes abertas fornece a camada externa dessa apuração (vínculos, patrimônio aparente, conflitos de interesse), que depois se articula com dados internos obtidos de forma legítima.
A investigação patrimonial e a recuperação de ativos localizam bens e direitos passíveis de constrição para dar efetividade a créditos e decisões, mapeando imóveis, veículos, participações societárias, marcas e sinais exteriores de riqueza a partir de registros públicos e pegada digital. A localização de pessoas e bens apoia citações, cumprimento de decisões e apuração de solvência. Em todos esses casos, a régua de licitude é intransponível: dados protegidos por sigilo (bancário, fiscal, telemático) só se obtêm por via judicial ou com base legal própria, e o tratamento de dados pessoais deve observar a LGPD, com finalidade legítima, minimização e ausência de meios enganosos ou invasivos.
Os casos de uso corporativos são recorrentes. Em M&A, a due diligence reputacional e de integridade da target e de seus controladores evita passivos ocultos e riscos de sucessão. Na contratação de executivos, o background check confirma histórico, credenciais e conflitos antes da nomeação. Na fraude interna, a apuração combina indícios de fontes abertas com controles internos para instruir medidas disciplinares e judiciais. No KYC/KYB reforçado, a verificação de UBO e de sanções sustenta o dever de conhecer o cliente em operações sensíveis. Em cada frente, o diferencial jurídico está em produzir material que resista ao contraditório, e não apenas em encontrar a informação.
Aplicações
- Due diligence investigativa: apuração orientada por pergunta de negócio, com achados rastreáveis à fonte, data de acesso e método de obtenção registrados.
- Background check: cruzamento de cadastros, quadros societários, litígios públicos, sanções, protestos e presença digital para juízo de integridade.
- Beneficiário final (UBO): identificação da pessoa natural que controla a estrutura, atravessando holdings e participações cruzadas.
- Offshore e camadas societárias: mapeamento de titularidade real e sinais de opacidade artificial, sem presunção de ilicitude pela complexidade.
- Forensic accounting (noção): análise de fluxos financeiros para detectar transações incompatíveis, superfaturamento e empresas de fachada.
- Compliance investigativo e integridade: apuração de denúncias, teste de controles e sustentação de decisões de remediação.
- Investigação patrimonial e recuperação de ativos: localização de bens e direitos para dar efetividade a créditos e decisões.
- Localização de pessoas e bens: apoio a citações, cumprimento de decisões e apuração de solvência.
- Casos de uso: M&A, contratação de executivos, fraude interna, KYC/KYB reforçado.
- Régua de licitude: dados sob sigilo apenas por via judicial; tratamento de dados pessoais conforme a LGPD, com finalidade legítima, minimização e sem meios enganosos.
Prova digital, forense e cadeia de custódia
A prova digital tem particularidades que a distinguem da prova física: é imaterial, facilmente alterável, duplicável sem marca aparente e dependente de metadados para ganhar sentido. Por isso, a admissibilidade não decorre do conteúdo isolado, mas da capacidade de demonstrar que o dado apresentado em juízo é idêntico ao dado originalmente encontrado. No processo penal brasileiro, a cadeia de custódia foi positivada nos arts. 158-A a 158-F do CPP, inseridos pela Lei 13.964/2019, que definem as etapas de reconhecimento, isolamento, fixação, coleta, acondicionamento, transporte e armazenamento, exigindo rastreabilidade contínua do vestígio, do primeiro contato até a apresentação.
A preservação e a coleta seguem, no plano técnico, boas práticas internacionais consolidadas na ISO/IEC 27037:2012, que orienta a identificação, coleta, aquisição e preservação de evidência digital de modo a manter sua integridade. O princípio é operar sobre cópias forenses e preservar o original inalterado, documentando quem fez o quê, quando, com qual ferramenta e resultado. Nesse ponto se articula a função hash (por exemplo, SHA-256): ela gera uma impressão digital do arquivo ou da mídia, de modo que qualquer alteração, ainda que de um único bit, produz um valor completamente diferente, permitindo verificar a integridade a qualquer momento.
Os metadados e dados EXIF (data e hora, dispositivo, geolocalização, parâmetros de captura) frequentemente carregam informação probatória tão relevante quanto o conteúdo visível, e podem confirmar ou desmentir a autenticidade de um arquivo. O timestamp confiável ancora o dado no tempo, e a timeline forense reconstrói a sequência de eventos a partir de registros de sistema, logs e metadados, permitindo narrar de forma verificável o que ocorreu. A recuperação de dados (arquivos apagados, fragmentos, áreas não alocadas) integra o mesmo cuidado metodológico, pois só tem valor se obtida e documentada dentro da cadeia de custódia.
É aqui que se explica a fragilidade do print solto. Uma captura de tela, isolada, é apenas a afirmação de uma pessoa sobre o que teria visto: não prova origem, autoria, integridade nem data, e é trivialmente editável. O que transforma um achado de fonte aberta em prova admissível não é a imagem, mas a documentação do procedimento, o cálculo e o registro do hash do material coletado e a manutenção da cadeia de custódia. Sem esse tripé, o contraditório derruba o achado; com ele, a defesa ou a acusação pode demonstrar autenticidade e integridade de forma técnica.
Esse arcabouço conversa diretamente com os demais conteúdos do hub. A disciplina geral da rastreabilidade do vestígio é aprofundada em /cadeia-de-custodia-da-prova/; a aplicação específica ao ambiente processual, com discussão sobre admissibilidade e valoração, em /prova-digital-no-processo-penal/. Já as soluções de ancoragem por hash em blockchain e sistemas de carimbo do tempo, tratadas no artigo sobre blockchain/ECBS, oferecem uma camada adicional de prova de integridade e de existência temporal, reforçando (sem substituir) a cadeia de custódia formal exigida pela lei.
É o que a obra de Gabriel Bulhões sublinha: o achado em fonte aberta deve ser sempre registrado e documentado, observando a cadeia de custódia da evidência digital (CPP arts. 158-A a 158-F, no que couber) e a norma técnica ISO/IEC 27037:2012. Sem isso, mesmo a ata notarial de um print é frágil.
Checklist de preservação
- Identificar e descrever o vestígio digital, sua fonte (URL, dispositivo, conta) e o contexto em que foi encontrado.
- Registrar data, hora e fuso do acesso, além do responsável pela coleta.
- Documentar o procedimento em tempo real (relatório, gravação de tela em vídeo, fotografias da mídia).
- Preservar o original inalterado e trabalhar sobre cópia forense sempre que possível.
- Calcular e registrar o hash (SHA-256) do material coletado no momento da coleta.
- Preservar os metadados e dados EXIF associados, sem edição.
- Acondicionar e armazenar o material com identificação única e acesso controlado.
- Manter o registro contínuo da cadeia de custódia (quem, quando, o quê, com qual ferramenta).
- Aplicar carimbo do tempo confiável e, quando cabível, ancoragem do hash (blockchain/ECBS).
- Recalcular o hash antes da apresentação e conferir a identidade com o valor original.
Cada etapa acima precisa ser documentada para o achado sobreviver ao contraditório. Se há prova digital no seu processo, fale com a equipe: avaliamos a integridade e a cadeia de custódia do material.
As dez etapas da cadeia de custódia, adaptadas ao OSINT
A cadeia de custódia da prova, definida no art. 158-A do Código de Processo Penal, foi pensada sobretudo para o vestígio físico. O vestígio digital de fontes abertas é imaterial e volátil, mas a lógica das dez etapas do art. 158-B se aplica, no que couber, à coleta e à produção de elementos de informação por OSINT. É a adaptação que a obra de Gabriel Bulhões defende para dar rastreabilidade ao achado.
É esse rigor, do reconhecimento ao armazenamento com hash conferido, que separa o print solto do elemento de informação aproveitável. Fale com a equipe para produzir prova digital com cadeia de custódia.
O fluxo da admissibilidade
elemento renovável sob contraditório
prova contaminada, sujeita a exclusão
Como conduzir uma coleta com valor jurídico
O roteiro que a obra reúne, aplicável por analogia à advocacia, da pergunta ao relatório. Cada etapa existe para que o achado sobreviva ao contraditório.
Hipóteses e escopo
Definir a pergunta de investigação e delimitar o termo pesquisado, com precisão, à luz da tese do caso.
Fonte e ferramenta corretas
Escolher o motor de busca e os operadores, avaliar a fonte (quem hospeda, domínio, autoria, data) e refinar com filtros.
Preservação imediata
Agir rápido pela volatilidade do conteúdo digital, preservando a integridade e iniciando a cadeia de custódia.
Coleta e análise
Coletar com apoio de software quando o volume exigir, cruzar os achados entre si e com os autos, e descartar o que não resiste à checagem.
Relatório documentado
Formalizar em relatório o conteúdo pesquisado, a metodologia, a data e a hora da coleta e as referências (URLs), pronto para renovação sob contraditório.
A tese, na íntegra
Fonte canônica · 2ª ed., EMais Editora, 2022
Manual Prático de Investigação Defensiva
A espinha jurídica deste centro parte de Manual Prático de Investigação Defensiva: um novo paradigma na advocacia criminal brasileira, de Gabriel Bulhões, coautor do Provimento OAB n.º 188/2018 que regulamentou a investigação defensiva no Brasil. O capítulo sobre Advocacia 4.0 e OSINT enfrenta a paridade de armas, a distinção entre fontes abertas e fechadas e a cadeia de custódia da evidência digital.
Glossário de inteligência de fontes abertas
OSINT — Open Source Intelligence (Inteligência de Fontes Abertas)
HUMINT — Human Intelligence (Inteligência de Fontes Humanas)
SIGINT — Signals Intelligence (Inteligência de Sinais)
GEOINT — Geospatial Intelligence (Inteligência Geoespacial)
IMINT — Imagery Intelligence (Inteligência de Imagens)
SOCMINT — Social Media Intelligence (Inteligência de Mídias Sociais)
FININT — Financial Intelligence (Inteligência Financeira)
CYBINT — Cyber Intelligence (Inteligência Cibernética)
MASINT — Measurement and Signature Intelligence (Inteligência de Medidas e Assinaturas)
TECHINT — Technical Intelligence (Inteligência Técnica)
Fonte aberta
Fonte fechada
Cadeia de custódia
Elemento de informação
Paridade de armas
Data mining
Leve os materiais técnicos com você
Dois materiais de trabalho, gratuitos, para quem atua com investigação em fontes abertas.
Dúvidas sobre OSINT jurídico
O que é OSINT?
OSINT (open source intelligence, inteligência de fontes abertas) é a coleta, o processamento e a análise metódica de informação publicamente acessível para responder a uma pergunta de investigação. A obtenção é legal e não depende de afastamento judicial de direito fundamental, porque trabalha apenas com fontes abertas, aquelas de livre acesso, em oposição às fontes fechadas (protegidas ou negadas), que exigiriam ordem judicial.
Qual a diferença entre fonte aberta e fonte fechada?
Fonte aberta é a de livre acesso, que não exige autorização judicial para ser consultada, como registros públicos, diários oficiais, tribunais, imprensa e redes sociais públicas. Fonte fechada é a de acesso restrito, cujo dado é protegido (exige credenciamento) ou negado (exige busca e apreensão). O OSINT opera exclusivamente sobre o recorte das fontes abertas. Essa distinção é o coração da licitude, na leitura de Gabriel Bulhões (Manual Prático de Investigação Defensiva, 2ª ed., 2022).
A advocacia pode usar OSINT? É lícito?
Sim. O uso de OSINT pela defesa é um ato de investigação defensiva fundado na ampla defesa (CF art. 5º, LV) e no Provimento OAB n.º 188/2018. O fundamento, defendido por Gabriel Bulhões, é a paridade de armas: se o Estado já usa massivamente inteligência de fontes abertas, negá-la ao cidadão, às empresas e à advocacia é insustentável. A licitude depende de acessar apenas fontes abertas e de documentar cada coleta.
A prova obtida por OSINT é admissível no processo penal?
O material de OSINT é um elemento de informação pré-constituído unilateralmente. Para ter valor de prova, precisa ser renovado sob o crivo do contraditório e ser documentado com observância da cadeia de custódia (CPP arts. 158-A a 158-F). O registro de origem, data, método, integridade (hash) e a preservação do conteúdo é o que sustenta a admissibilidade.
Um print de tela serve como prova?
Um print isolado é frágil. Mesmo a ata notarial de prints é limitada: o cartorário atesta apenas que viu aquilo na tela mostrada pela parte, sem verificar a veracidade do conteúdo, a identidade dos interlocutores ou os metadados. O que torna o achado confiável é a documentação técnica da coleta, a preservação da integridade (função hash) e a cadeia de custódia, não o print em si.
O que são as disciplinas de inteligência (HUMINT, GEOINT, SOCMINT)?
São as fontes a partir das quais a inteligência é produzida. OSINT parte de fontes abertas; HUMINT de fontes humanas; GEOINT de dados geoespaciais; SOCMINT de redes sociais; SIGINT de sinais; IMINT de imagens; FININT de dados financeiros; CYBINT do domínio cibernético. Na investigação jurídica lícita, OSINT, GEOINT e SOCMINT (sempre sobre o que é público) são as mais aplicáveis.
Quais ferramentas de OSINT existem?
As opções são inúmeras e mudam a cada dia, por isso o hub traz um catálogo comentado classificado por finalidade e por risco jurídico para o uso pela advocacia, do buscador com operadores a exploradores de blockchain, sempre com a régua de que só se acessa fonte aberta, sem invasão nem engenharia social.
OSINT e LGPD: coletar dados em fontes abertas viola a lei de proteção de dados?
A LGPD (Lei 13.709/2018) não proíbe a coleta em fontes abertas, mas disciplina o tratamento dos dados pessoais coletados. Na investigação, isso significa finalidade determinada (o exercício regular de direitos em processo), minimização (só o necessário para a tese) e segurança, sob o sigilo profissional. O enquadramento é legal e de domínio geral, não uma catalogação de ferramentas.
Posso usar dados vazados ou da dark web na defesa?
Com muita cautela. Dado vazado ou obtido na dark web não é fonte aberta: sua origem é potencialmente ilícita, o que atrai o regime da prova ilícita. Como sustentam Gabriel Bulhões e Alexandre Morais da Rosa (ConJur, 2025), o uso pela defesa é excepcional e orientado ao favor do réu, condicionado a quatro requisitos: ausência de participação na obtenção, verificação pericial de autenticidade, relevância e necessidade, e observância da cadeia de custódia. Não é regra, e não se estende à acusação.
Como contratar uma investigação em fontes abertas para um caso?
Pelo WhatsApp (84) 98164-1881 ou pelo formulário de consulta. O escritório atende em Natal/RN, São Paulo/SP e Brasília/DF e conduz investigação em fontes abertas em casos de todo o Brasil, com documentação e cadeia de custódia, inclusive em parceria com o advogado que já cuida do processo.
Da inteligência à defesa concreta
OSINT não é um fim em si. É o ferramental que alimenta a investigação defensiva, a produção de provas digitais, a due diligence e a recuperação de ativos, sempre com documentação e cadeia de custódia. O escritório opera essa inteligência de forma lícita e tecnicamente robusta, para fins jurídicos.
Aprofunde e conecte
Investigação Defensiva: o direito de investigar em favor do cliente.
OSINT na investigação defensiva: o serviço aplicado à defesa criminal.
Prova Digital e Cadeia de Custódia: da tela aos autos.
Criptoeconomia e Blockchain como prova: OSINT de criptoativos.
GB Labs: todos os projetos especiais do escritório.
