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Por que a IA puxa para a tese majoritária

O sistema reproduz o que é frequente, não o que é sólido. Em processo penal, o frequente raramente é a tese da defesa — e o achatamento acontece antes de a tese nascer. Atualizado em julho de 2026.

Há dois vieses distintos operando quando um criminalista consulta uma ferramenta de texto, e quase todo mundo conhece só um. O conhecido é a concordância: apresente a sua tese e receba reforço. O outro é mais silencioso e mais consequente — quando você não apresenta tese nenhuma, a resposta gravita para a posição mais frequente.

Frequência não é solidez

Um sistema de linguagem produz a continuação mais provável do texto que recebeu, e a probabilidade vem do que apareceu no material de treinamento. Uma posição repetida em milhares de documentos é, por construção, mais provável de ser devolvida do que uma posição sustentada em poucos — independentemente de qual das duas resiste melhor ao exame.

A ferramenta não avalia argumento. Ela reflete distribuição. Isso é neutro em muitos domínios e deixa de ser neutro aqui.

A assimetria do que virou texto

Pense no que efetivamente se publica em matéria criminal. Decisões, ementas, manuais, modelos, peças de acusação — tudo isso é produzido em escala e fica disponível. Já a sustentação cuidadosa de uma tese defensiva minoritária muitas vezes não chega a virar texto público: ela vive numa peça específica, num caso específico, e não se repete.

A consequência é estrutural, não conspiratória: a defesa trabalha com frequência na posição menos representada no material, e é exatamente essa posição que a ferramenta devolve enfraquecida — quando devolve.

O achatamento acontece antes de a tese nascer

Este é o ponto que justifica a página. O dano maior não está numa resposta ruim que se descarta. Está no momento em que a primeira formulação de uma linha de defesa vem de uma saída automatizada.

Ela nasce puxada para o centro. O advogado então trabalha a partir dali — refina, melhora, fundamenta — uma tese que nunca foi realmente sua e que já começou domesticada. Não há revisão que recupere a alternativa que não foi considerada, porque ninguém sabe que ela existia.

Daí uma regra prática simples: a ferramenta rende mais para testar hipótese do que para gerá-la. O uso produtivo, descrito em estratégia defensiva com inteligência artificial, é a refutação dirigida — depois de a tese existir.

Os dois vieses, e por que conhecer um só é pior

ConcordânciaInclinação majoritária
Quando apareceVocê apresenta a sua teseVocê pergunta em aberto
O que a saída fazReforça o que você disseReproduz o que é mais frequente
Sensação de quem lê"Ele concordou comigo""Esta é a resposta neutra"
CorreçãoPedir refutação explícitaPedir a tese minoritária e os melhores argumentos dela

Quem conhece apenas o primeiro adota a correção do primeiro — pergunta em aberto para "evitar induzir" — e cai direto no segundo, acreditando ter obtido neutralidade. É a pior das duas posições, porque vem acompanhada de confiança.

Como perguntar

  1. Pedir explicitamente a construção da tese minoritária, com os melhores argumentos que a sustentam — não uma menção a ela.
  2. Depois, pedir a refutação dessa mesma tese. O que sobrevive às duas etapas é o que vale levar adiante.
  3. Quando uma posição vier primeiro, pedir deliberadamente a contrária.
  4. Nunca aceitar da ferramenta a informação de que algo é majoritário: isso é afirmação empírica sobre jurisprudência ou doutrina e exige levantamento verificável.

O item 4 é o mais fácil de escorregar. A ferramenta produz com naturalidade frases do tipo "o entendimento predominante é" — e essa frase, numa peça, é um dado que precisa ser apurado e citado como qualquer outro. Ver alucinação de IA no processo penal.

Por que isso é matéria de ampla defesa

A ampla defesa (CF, art. 5.º, LV) pressupõe que a defesa possa sustentar a tese que o caso permite — inclusive quando ela é impopular, inclusive quando contraria a corrente. Uma ferramenta que sistematicamente devolve o centro não viola nada por si; mas um escritório que a use sem conhecer essa inclinação passa a produzir, por inércia, defesas mais conformadas do que o caso exigia.

Perguntas frequentes

Por que a IA tenderia a uma tese em vez de outra?

Porque produz a continuação mais provável a partir do que viu escrito. Uma posição que aparece com muita frequência no material de treinamento é, por definição, mais provável de ser reproduzida do que uma posição minoritária — mesmo que a minoritária seja tecnicamente mais sólida. A ferramenta não avalia qualidade de argumento: ela reflete frequência.

Isso é o mesmo que o problema da concordância?

Não, e é importante não confundir. A concordância aparece quando você apresenta a sua tese e recebe reforço. A inclinação majoritária aparece quando você não apresenta tese nenhuma e pergunta em aberto: a resposta gravita para a posição mais frequente. São dois vieses independentes, com correções diferentes, e conhecer só um deles dá falsa segurança.

Por que isso é pior na defesa criminal do que em outras áreas?

Por uma assimetria estrutural do material disponível: decisões, ementas, manuais e peças de acusação são produzidos e publicados em volume muito maior do que a sustentação de teses defensivas minoritárias, que muitas vezes não chegam a virar texto público. A defesa trabalha com frequência justamente na posição menos representada — e é exatamente essa posição que a ferramenta tende a devolver enfraquecida.

Como se corrige na prática?

Invertendo o pedido. Em vez de "qual é o entendimento sobre X", pedir explicitamente a construção da tese minoritária, com os melhores argumentos que a sustentam, e depois pedir a refutação dela. Também funciona pedir a posição contrária àquela que veio primeiro. O objetivo não é obter a resposta certa da máquina: é obter o conjunto de alternativas que o próprio hábito não produziria.

Existe risco de a ferramenta "achatar" a tese antes de ela nascer?

É o risco mais concreto, e ele opera cedo. Quando a primeira formulação de uma linha de defesa vem de uma saída automatizada, ela já nasce puxada para o centro. O advogado então trabalha a partir daí, refinando uma tese que nunca foi realmente sua. Por isso a ferramenta rende mais depois de a hipótese estar formulada — para testá-la — do que antes, para gerá-la.

A ferramenta pode dizer se uma tese é majoritária ou minoritária?

Pode sugerir, e a sugestão não é confiável para esse fim específico. Afirmar que determinada posição é majoritária é uma afirmação empírica sobre o estado da jurisprudência ou da doutrina, e exige levantamento verificável, não impressão estatística de um gerador de texto. Se essa informação vai integrar uma peça, ela precisa ser apurada e citada como qualquer outro dado.

Nota de método: o argumento desta página é estrutural — sobre como o material escrito se distribui — e não empírico. Ela não afirma qual é a posição majoritária sobre nenhum tema concreto, não quantifica a inclinação e não compara ferramentas, porque nada disso foi apurado em fonte conferida. A única norma citada, CF art. 5.º, LV, já é utilizada em outras páginas deste portal. Nenhum julgado é invocado.

Sobre o autor

Sobre o advogado responsável

Retrato de Gabriel Bulhões no escritório da GB Advocacia

Gabriel Bulhões

Advogado criminalista, fundador da GB Advocacia Criminal e Investigação Defensiva e professor de pós-graduações. Coautor do Provimento OAB n.º 188/2018, norma que regulamentou a investigação defensiva no Brasil. Mestre e doutorando em Ciências Criminais pela PUC/RS, pós-graduado em Ciências Criminais pela UCAM/RJ e em Direito Penal Econômico pelo IBCCRIM em parceria com a Universidade de Coimbra. Vice-Presidente da Comissão Nacional de Investigação Defensiva do CFOAB e Presidente da comissão equivalente na ABRACRIM. Coordenador Adjunto da Coordenação Regional do IBCCRIM no Distrito Federal (2025-2026) e coordenador dos seus Grupos de Estudos Avançados (GEAs), entre eles o grupo interestadual (DF e SC) sobre erros judiciários na investigação defensiva. Head dos projetos Defenda-me e ETHOSBrasil.org, Diretor Jurídico da APECOF e presidente, na mesma associação, da Comissão de Investigação Defensiva. Autor do Manual Prático de Investigação Defensiva e de outros dois livros, sobre cadeia de custódia e blockchain e sobre o controle da atividade policial. O acervo do escritório treina inteligência artificial especializada na plataforma Criminal Player, ao lado dos acervos de Aury Lopes Jr. e Alexandre Morais da Rosa.

OAB/RN n.º 13.096 · OAB/SP n.º 526.786

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